quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Desenvolvimento de aplicativos móveis acirra briga por mercado

Disputa entre fabricantes, operadoras e profissionais de TI cria novas oportunidades de negócios.

Por Andrea Giardino e Fabiana Monte, da Computerworld
25 de novembro de 2009 - 07h00

Nos primeiros meses de 2010, TIM e Claro pretendem colocar no mercado brasileiro suas lojas de aplicativos. O movimento das duas operadoras de telefonia celular segue uma tendência inaugurada pelo iPhone e, depois, adotada por diversas outras empresas, como Microsoft, RIM e Nokia. Nos Estados Unidos, a Sprint, terceira maior operadora de telecomunicações norte-americana, também anunciou a intenção de lançar sua loja de aplicativos em 2010.

Neste novo modelo, fabricantes de dispositivos têm a possibilidade de criar portais na internet para oferecer aplicativos que podem ser baixados por seus clientes. Antes do lançamento da App Store eles concentravam as ofertas, baseadas em downloads de jogos e ringtones. À primeira vista, este cenário com inúmeros competidores parece gerar uma disputa ferrenha entre fabricantes e operadoras para conquistar o usuário na disputa pelo download. Mas, na verdade, cria novas possibilidades para todo o ecossistema envolvido: operadoras, fabricantes e desenvolvedores.

“Quero que o cliente aprenda a usar porque uma hora ou outra ele vai se interessar pelo meu serviço. Não existe canibalização”, diz a diretora de serviços de valor agregado da Claro, Fiamma Zarife. Para a executiva, o grande diferencial das lojas de aplicativos é a forma de apresentar o conteúdo, por meio de ícones chamados widgets. Na análise de Fiamma, o importante é catequizar o usuário em relação ao consumo de serviços de valor agregado (que incluem os aplicativos). “Nossas pesquisas mostram que o usuário de dados usa mais o celular como um todo: mais voz, mais dados, mais SMS”, justifica a executiva.

Seguindo o raciocínio de Fiamma, o lançamento de uma loja de aplicativos própria da Claro é uma das formas de incentivar esse consumo. O plano da operadora é colocar o serviço no mercado já em janeiro, enquanto a meta da TIM é lançar a sua em março. “Antes do lançamento, é necessário realizar testes de integração e ter a certeza de que a loja funciona para a maior quantidade possível de usuários”, afirma o diretor de marketing da TIM, Rogério Takayanagi, em entrevista coletiva para anunciar a estratégia da empresa italiana.

A plataforma escolhida para as lojas de aplicativos de Claro e TIM é a Plaza Retail, da fabricante de chips Qualcomm. A plataforma foi projetada com foco nas operadoras de telefonia celular ou em lojas “horizontais”, como classifica o country manager da Qualcomm no Brasil, Paulo Breviglieri.
A solução é agnóstica em relação à marca e ao modelo de celulares e permite a criação de aplicativos capazes de rodar na maior parte dos aparelhos celulares disponíveis no mercado, com sistemas operacionais Java, BREW Flash e Android. Já se planeja, também, suporte para os sistemas Windows Mobile, Palm, Symbian e LiMo.

O executivo da TIM avalia que a característica aberta da loja de aplicativos é estratégica para atrair desenvolvedores interessados em colocar seus aplicativos para download. Para Takayanagi, isso permitirá, inclusive, a criação de softwares corporativos, voltados para produtividade. “Se existe demanda, vai haver alguém para desenvolver aplicativos para qualquer nicho de mercado”.

Como as empresas dão as cartas

O gerente de serviços e soluções da Nokia, Vinícius Costa, avalia que o mercado de desenvolvimento no Brasil é mais organizado do que em outros países, onde se vê muito mais desenvolvedores independentes. No cenário nacional, por outro lado, os desenvolvedores atuam, na maioria das vezes, trabalhando para empresas, mesmo que pequenas. O modelo de remuneração para o desenvolvedor varia de empresa para empresa. A Apple é reconhecida por limitar o desenvolvimento de seus aplicativos à App Store. Todos os softwares passam por processos de licença, homologação e validação.

Por meio do iPhone Dev Center, qualquer pessoa pode baixar um kit com vídeos, tutoriais, bibliotecas e códigos de exemplo. Antes de fazer o download do kit de desenvolvimento, é preciso se cadastrar no site da Apple e pagar uma anuidade de 99 dólares. Dois programas são oferecidos, um para empresas e outro para profissionais autônomos. Daí para frente, quem decide se os aplicativos serão gratuitos ou pagos é o desenvolvedor. Quando forem pagos, 70% ficam com o desenvolvedor e 30% com a Apple, valor destinado à manutenção tecnológica da loja virtual, de acordo com a empresa.

Segundo o engenheiro de sistemas da Apple Brasil, Fabio Ribeiro, atualmente, há mais de 100 mil aplicativos aprovados, criados 125 mil desenvolvedores que trabalham com a Apple em todo o mundo. O volume de downloads atingiu a marca de 2 milhões, desde o início da App Store, há dois anos. Já a Research in Motion (RIM), fabricante do BlackBerry, não exige que os desenvolvedores usem exclusivamente a BlackBerry Shop como canal para divulgar e vender seus aplicativos.

De acordo com o gerente de inteligência de mercado da RIM para América Latina, Adriano Lino, a estratégia está ligada à ampliação do ecossistema ao redor dos produtos da empresa, por isso não há exigência de exclusividade. A BlackBerry Shop foi lançada mundialmente em abril deste ano e há três meses chegou ao País, onde só conta com aplicativos gratuitos. Por isso, a empresa ainda está discutindo como será o modelo de remuneração dos desenvolvedores no País. No exterior, o desenvolvedor fica com 80% do valor e os 20% restantes vão para a RIM. “Se compararmos ao mercado, é uma das fatias mais baixas praticadas”, diz. Em média, a proporção é de 70% a 30%, observa o gerente.

Como os desenvolvedores podem criar aplicativos e não publicá-los na loja da RIM, Lino não consegue informar o total criado. A estimativa do executivo é que este total esteja na casa de 20 mil, dos quais 2.500 estão disponíveis na BlackBerry Shop. A grande vantagem de estar na loja, avalia, é a possibilidade do desenvolvedor ter seu aplicativo simultaneamente em quase 140 países.

Apesar de ter se lançado mais tarde nesse mercado – há cerca de dois meses –, a Microsoft acredita ter um modelo mais atraente e flexível tanto para as operadoras quanto para os desenvolvedores. As empresas ganham dinheiro ao ter a possibilidade de cobrar na fatura os aplicativos que seus clientes querem. A receita é dividida entre as duas partes, embora a Microsoft não revele o percentual.

“Essa negociação é feita caso a caso”, observa o gerente de soluções de mobilidade da empresa, Julio Ramos. No Brasil, a Microsoft ainda está fechando acordos com as empresas de celular, o que deve ser feito até o primeiro trimestre de 2010. A remuneração dos desenvolvedores segue a regra de mercado - 70% com o profissional e 30% com a Microsoft.

Com mais de 20 mil aplicativos espalhados por vários sites, a meta da Microsoft é levar esses produtos para a loja, conhecida como Windows Marketplace. “Hoje, contamos com cerca de 600 aplicativos na loja”, afirma Ramos. Para ter o aplicativo no Windows Marketplace, o desenvolvedor precisa se registrar no portal, o que implica no pagamento de uma taxa anual de 99 dólares.

Esse valor dá o direito de submeter à empresa um total de cinco aplicativos em 12 meses. O excedente será cobrado por meio de uma taxa adicional. A aprovação dos aplicativos que ficarão disponíveis na loja segue um processo formal, com a avaliação não apenas do software, mas também do desenvolvedor, já que a companhia checa os dados pessoais do profissional para evitar pirataria ou problema de falsa identidade.

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